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A cada dia um novo "Bem Te Vi"

A cada dia um novo "Bem Te Vi"

por Lenora Louro e Rogério José*

Cena corriqueira no Rio de Janeiro os tiroteios, mortes de traficantes, balas perdidas, a classe média da zona sul aterrorizada. Enquanto isso, o "bom burguês" culpado, querendo esquivar-se de suas responsabilidade pela violência, caminha pela orla marítima, com sua calça e camisa grife, pedindo paz. As notícias divulgadas pelo Globo e Jornal do Brasil a respeito da morte do Cearense de 29 anos, chamado Erismar da Silva Moreira, o Bem Te Vi, devem dar um sentimento de tranqüilidade aos moradores das áreas mais nobres da Zona Sul do Rio de Janeiro.

As informações contidas na notícia sobre a trajetória do referido cidadão brasileiro dão o quadro desolador da juventude que ingressa no tráfico. Natural de Hidrolandia, cidade do sertão do Ceará , Bem te vi começa sua luta pela sobrevivência como lavrador. Sabemos das mazelas da caatinga do nordeste, O "saara brasileiro", e dá para imaginar os motivos que levaram os país de Erismar a se mudar para o Rio de Janeiro. O presidente Lula, para falar de uma referência nacional, em várias oportunidades já nos deu seu depoimento. Ele e Bem te Vi formam a maioria da população dos grandes centros do sudeste: migrantes pobres que vem tentar a vida no sudeste. Aos 14 anos o personagem dessa história fazia parte do exército do Morro da Rocinha, aos 27 chegava a dono da Rocinha e aos 29 terminava sua vida sem direito a ser velado e ao contrário do que pensa a polícia esse bem te vi pode não voar mais, porém diariamente outros passarinhos içam vôo num ciclo de morte da juventude pobre, negra e nordestina. O que comemoram os policiais, a morte da raça a que o senador Bonhausen se referia? Os policiais podem até Ter motivos para comemorar, eu só tenho para me entristecer.

Para "entender" fenômenos como esse, várias organizações não governamentais, artistas, sindicatos de engenheiros, médicos, arquitetos começaram a marcar presença na arena política da segurança pública. A participação das classes médias nessa esfera de discussão não é fenômeno novo. Sua presença sempre está evidente quando o assunto em questão é defesa da propriedade, não raro são cooptadas pelos setores conservadores, sofisticando o discurso em defesa da "tradição, família e propriedade". A alta escolaridade registrada nesse segmentos parece ser um fenômeno que emburrece, simplifica, embrutece "o povo escolhido do capital", fazendo-os célebres conhecedores dos modismos pós modernos e primatas de sua realidade social. No entanto, se é verdade que sempre houve grupos progressistas nesses segmentos, tampouco é mentira que falta clareza a alguns representantes desses setores médios.

As observações anteriores dão indícios da problemática em que as notícias sobre a favela, produzidas por esses setores médios, estão inseridas. O que se escreve sobre favela passa a ser a favela e as questões sobre relações de poder e o lugar social do grupo que escreve são sutilmente secundarizadas. Atualiza-se o processo de explicar ao favelado e ao publico médio que assiste televisão, filmes e lê livros sobre o tema, o que é favela. Aos "doutos ignorantes", contudo, não ocorre deixar que o favelado fale por si mesmo, visto que presumivelmente qualquer favelado que venha a falar será antes o agitador que quer criar dificuldades, o mau agradecido, o mau educado do que o bom favelado que ignore as imprecisões, generalidades e essencialismos dos discursos produzidos sobre favela. Sendo assim, as noções sobre a favela e o favelado influenciam tanto as pessoas classificadas como faveladas quanto os intelectuais e moradores do asfalto. Podemos afirmar que em parte essas noções aprofundaram e até solidificaram as distinções entre asfalto e favela, favelado e não favelado.

Naturaliza-se as condições de vida da população de favela, bem, como as arbitrariedades a que está submetida por considerar ser fruto de uma fatalidade, ou resultado dos "maus atos" dessas classes perigosas que mesmo trabalhadoras, carregam dentro de si o germe da transgressão, da barbárie, do roubo, da malandragem, da marginalidade. A origem social, a cor de suas peles, o lugar de onde vieram predestina tal qual um regime de casta indiano, o lugar de segunda classe que naturalmente ocuparão.

O problema da violência hoje é que ela não está mais circunscrita aos setores populares. O que se convencionou chamar de violência hoje está saindo do seu berço natural: a favela. Ela agora chega ao asfalto e atinge o pai e a mãe no trabalho, a filha na faculdade, o filho no seu carro novo. A classe média está chocada? Está com medo? Sitiada? Pergunte a população da favela como ela se sente com os tiroteios diários entre policiais e traficantes? Pergunte aos pais e mães moradores de favela qual é a sensação de ver o filho chegar a adolescência e transformar-se no público-alvo tanto da polícia quanto do tráfico?

A sensação de medo e de insegurança total experimentada pela classe média não é compartilhada pelas camadas populares. Na população mais pobres a questão da segurança é um problema entre tantos outros. No entanto, nas discussões que circulam nos jornais e revistas e mesmo algumas lideranças de movimentos sociais tratam de despolitizar (ou distorcer) as manifestações organizadas e protagonizadas pela favela. Os cartazes, propagandas na televisão, as passeatas, camisas pedindo paz não apresentam nenhum senso de realidade, embora, em alguns casos raros, dotados de muita boa intenção. No entanto, essas iniciativas são largamente utilizadas paraconclamar a classe média a colaborar nessa empreitada que busca justiça, liberdade para consumir e exibir o que se consome. Preocupados com o mundo do faz de conta, os grupos que vão à orla de Ipanema pedir paz preferem acreditar e ser coniventes com argumentos que responsabilizam a favela por todos os males do mundo. A quem a classe média pede paz? Aos seus faxineiros, jardineiros, operários, atendentes que moram na favela e seriam os responsáveis pela ameaça à propriedade privada e pela "violência" no asfalto? É necessário remove-los, murá-los, a favela não pode lembra-los de que o rei vai nu?

A classe média está se auto-enganando. Está caminhando em seu belo carro blindado, se fechando em seus condomínios com câmeras e muros eletrificados, enquanto a pobreza cresce ao seu redor. Eles não acreditam ser responsáveis pela existência do caveirão (agora pacificador!?), pelo grito desesperado da mãe que perdeu seu filho, pelo aumento da criminalidade, pelas altas taxas de homicídios, pela baixa taxa de expectativa de vida, pela péssima qualidade de vida. Tudo não passa de opção pessoal!!! Os pobres são pobres porque não tiveram sorte, não trabalharam o suficiente ou são burros demais para enriquecer.

Joãos e Josés Bem te vi da Silva, exemplo da hipocrisia brasileira, se continuassem sendo lavradores lá no nordeste seriam dignos da pena, da solidariedade e das campanhas de arrecadação de alimentos e cobertores do povo da classe média. Como vieram para o sudeste, e dentro das possibilidades que lhe foram oferecidas tomam o destino em suas próprias mãos, tornam-se inimigos, bandidos, perdem o romantismo do personagem do livro Vidas Secas. Eles precisam ser eliminados, pois a classe média acha feio o que não é espelho.

Para terminar, vale lembrar Abby Linconl, cantora negra, que em um belíssimo Jazz engajado, canta estrofes que ilustram bem as histórias de exclusão.

" Nós nos matamos de propósito?

A destruição é tudo que nos pertence.

Nós estamos morrendo por alguma razão?

Nossa partida está em nós mesmos?

Seria o povo suicida?

Nós viemos de tão longe para morrer?

Devemos perecer através de nós mesmos,

por essa mentira inútil sem valor?"

*Lenora Louro é Médica-psiquiatra da SMS-RJ

** Rogério José é historiador , mestrando em história na UFRJ.

 

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