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Divagações sobre o movimento estudantil

Divagações sobre o Movimento Estudantil

Brasil, início do ano de 1968. Estudantes discordavam do governo e de sua política educacional, da qual estavam convencidos de que era o oposto de suas reivindicações. Mas o que reivindicavam os estudantes?

Reivindicavam mais verbas para as escolas e universidades, melhorias nos espaços de estudo, nas bibliotecas e nos laboratórios, modernização dos equipamentos de ensino e pesquisa, ampliação do acesso ao ensino superior e uma política de auxílio aos estudantes mais pobres: bolsas de estudo, assistência médica, transportes e restaurantes mais baratos.

Lutavam também por reformas no ensino e na pesquisa, currículos adaptados ao país, métodos de avaliação objetivos e transparentes, assim como novos professores abertos ao diálogo. Os estudantes buscavam participação, queriam ter voz na construção das políticas educacionais, lugar nos órgãos de decisão, enfim, a democratização das escolas e universidades brasileiras.

Em 1968 já eram raras as lideranças estudantis desvinculadas aos partidos de esquerda. Partidos que exerciam enorme influência no meio estudantil e polarizavam o movimento. Naquela época, dois blocos se defrontavam: de um lado a Ação Popular [AP], parcialmente apoiada pelo partido Comunista do Brasil [PC do B] e pelo Partido Comunista Brasileiro Revolucionário [PCBR], de outro as dissidências do PCB, aliadas à Organização Revolucionária Marxista – Política Operária [ORM-POLOP] e em certos momentos ao próprio PCB.

A “AP” enfatizava as denúncias políticas gerais e as lutas de rua, enquanto as “Dissidências” e seus aliados preferiam concentrar a atenção nas lutas reivindicatórias e na articulação e organização nas escolas e nas universidades. Ambas as orientações não excluíam a luta política nem a luta reivindicatória, mas a prioridade entre elas.

Refletindo a polaridade dos partidos de esquerda do país, os estudantes não chegavam a um acordo sobre as opções de luta. Mas no congresso da UNE, ainda no começo de 1968, por maioria apertada, optaram pela segunda posição.

Após o congresso, estudantes da USP, FGV e PUC ocuparam suas Reitorias reivindicando mais vagas. No Rio de Janeiro, os estudantes do Calabouço não aceitavam as condições de reabertura de seu restaurante, e no dia 28 de março organizaram uma passeata pela melhoria de suas condições. A passeata que iria do Calabouço até a Assembléia Legislativa foi impedida pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar, que recebido com vaias pelos estudantes, invadiu o Restaurante de armas nas mãos e começou a atirar. Feriram alguns a bala e outros a cassetetes. Mataram o estudante Edson Luís de Lima Souto.

Com a morte do estudante, desencadeou-se uma onda de protestos. A manifestação de 1º de abril [aniversário do golpe militar de 1964] e a missa de sétimo dia de Edson Luís foram fortemente reprimidas. Manifestações por mais verbas dentro das universidades percorreram todo o 1º semestre, a violenta repressão imposta pela polícia resultou na chamada “semana sangrenta”, que deu início as grandes passeatas daquele ano: a passeata dos 100 e dos 50 mil, que ocorreram respectivamente em 26 de junho e 04 de julho.

A volta às aulas em agosto é marcada pelo refluxo, o clima já não era mais o mesmo, líderes estudantis presos, exército nas ruas. Em 13 de dezembro de 1968 fechava-se o “cerco”, o Ato Institucional nº5 instaurava definitivamente o Estado de exceção.

A memória do movimento estudantil, em função de sua rotatividade, pode ser facilmente perdida ou dissimulada. Muitos acreditam, por ignorância ou por distorções da história, que os estudantes dos anos de repressão, de uma hora para a outra simplesmente saíram às ruas gritando palavras de ordem contra a ditadura e o imperialismo norte-americano. Passados quase 40 anos, desconhecemos o processo desse momento tão importante do movimento estudantil nacional, ignoramos suas derrotas, suas vitórias, seus personagens.

Hoje, palavras de ordem gerais e evasivas, como: “Fora FHC e o FMI”, “Não a Reforma universitária do Lula e do FMI”, seguem linhas políticas maximalistas que somente nos isolam de nossas próprias bases e afastam os estudantes. Discursos simplistas e panfletários: “Não ao PROVÃO”, “Não a privatização da universidade pública”, de modo algum favorecem a democratização do debate, a desalienação do estudante, a sua politização. Quando optamos por discussões políticas gerais e esquecemos das políticas reivindicatórias, erramos. Quando optamos pela recusa passiva, pelo discurso do “não”, erramos novamente, e erramos por ignorar a história.

Mas essa mesma história conta que naquele início de 68 decidiram que era preciso fazer primeiro a luta reivindicatória. O ex-ministro José Dirceu, que naquele ano era Presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo, em entrevista cedida em 1988 relembrou um pouco os acontecimentos:

Entendíamos que era preciso fazer a luta reivindicatória. Primeiro, o centro acadêmico tinha que ser um espaço social, cultural e de apoio aos estudantes. Fazer cursos paralelos, ter apostilas, salas de estar. O centro acadêmico devia ser compreendido como espaço social, um instrumento de politização da luta contra a política educacional do governo. Porque a luta contra a política educacional era uma luta contra a aplicação de uma política econômica geral, uma política de investimento que um país capitalista, no caso, o Brasil, tinha para a educação. Ora, a educação, no modelo que queria impor ao país, deveria ser privatizada. Além disso, este mesmo modelo não melhorava, muito ao contrário, piorava, em toda a linha, as condições de mercado de trabalho para os estudantes que iam se formar. Então, toda vez que discutíamos a política educacional do governo, discutíamos o orçamento federal, o próprio sistema capitalista estava em questão. Em função da discussão sobre a política educacional, podíamos abordar o que estava se passando com o estado brasileiro, que instituições estavam sendo criadas, o que era a ditadura militar. Portanto, a luta reivindicatória estava articulada com a luta política, inclusive porque se chocava com a política educacional do governo e com a ditadura militar. Mas, antes de tudo, era preciso fazer as lutas reivindicatórias (...)

Mesmo com algumas semelhanças pontuais, como a Reforma Universitária, de um modo geral o Brasil de hoje é bem diferente do de 1968. Vivemos uma democracia consolidada, vivemos o Brasil das associações profissionais, dos movimentos sindicais e sociais, do MST, do FNRU, dos Sem Teto, da liberdade de imprensa, das ONGs, da globalização. Mas por outro lado, a questão educacional se agravou, o mercado de trabalho está cada vez mais reduzido e o ensino é encarado cada vez mais como mercadoria pelos donos do poder. Toda essa realidade altera sensivelmente o papel do movimento estudantil no contexto social contemporâneo.

Em pleno século XXI, e em uma conjuntura completamente diferente da década de 60 e de seus “anos de chumbo”, o movimento estudantil encontra-se perdido, sem rumo, sem saber ao certo qual o seu papel, sem saber como agir, onde atuar.

Soluções generalistas não existem. Em 1968 os estudantes universitários eram 200 mil, enquanto hoje, são 50 mil só os estudantes de arquitetura e urbanismo. Dado que por si só já justifica a importância do movimento estudantil de área, de Federações e Executivas de Curso como a FeNEA.

Em 2006, o estudante também é outro, é filho da política da ditadura militar, da política de destruição contínua do ensino médio e superior, filho da alienação, da pós-modernidade: individualista, materialista, egocêntrica... O interesse por política, economia e sociologia é mínimo. O interesse de participação em movimentos coletivos, políticos e sociais é ainda mais insignificante.  Mas quais os caminhos dentro dessa nova realidade contemporânea?

Vladimir Palmeira, um dos líderes estudantis mais representativos da década de 60, hoje candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo PT, em entrevista concedida no final da década de 80 apontou algumas diretrizes:

Primeiro, é preciso que o movimento estudantil priorize as questões da universidade. Segundo, e em conseqüência, as entidades devem representar os estudantes e não só setores mais avançados. Você tem que traduzir as expectativas, os anseios do conjunto da massa estudantil. Terceiro, é necessário encontrar, em cada momento, a articulação entre a luta sindical e a luta política, evitando a partidarização do movimento. Por exemplo, em nosso propagandismo, tendíamos a passar coisas que refletiam nossas concepções partidárias e não as que expremiam o movimento. Isto é desrespeitar a autonomia, a representatividade das entidades. Recentemente no Brasil houve um congresso estudantil que discutia se devia se pronunciar a favor do PMDB ou do PT. Um absurdo. Depois decidiram não escolher nenhum dos dois, mas tiraram uma resolução contra votar no PDS. Outro absurdo. Não é assim que uma entidade de massa faz política. (...) Já vi alguns murais estudantis em faculdades que se fala de tudo, da Babilônia a Israel, da luta de classes a guerra atômica, mas nenhuma palavra sobre as reivindicações estudantis. O estudante tem uma luta que termina sendo política, de qualquer jeito, mas não se trata de impor a linha de nenhuma organização, de nenhum grupo ou partido político.

Hoje não vivemos a ditadura militar, mas a ditadura das imagens. Os golpes não são mais de Estado, mas de publicidade. O mundo se modernizou, e o movimento estudantil deve acompanhar esse processo sem esquecer que o estudante, seus anseios e reivindicações são suas prioridades. Independente do que pensam partidos políticos, ONGs, movimentos sindicais ou sociais. Cabem aos Diretórios e Centros Acadêmicos, aos Diretórios Centrais de Estudantes, as Federações e Executivas de curso identificar, debater e buscar soluções concretas para os problemas estudantis. Mas sem esquecer de seu passado, sem esquecer de aprender com sua história.

Eu diria, ainda, sobre 1968, que é necessário não esquecer que, se o movimento mobilizava a sociedade, o fazia com base nos problemas dos estudantes. Esta é uma indagação central para todas as lideranças estudantis: quais são os problemas dos estudantes? Da boa resposta a essa questão dependerá a força do movimento.” Sérgio Passarinho, arquiteto. Em 1968, Presidente da União Estadual dos Estudantes da Bahia.

 por Gabriel Botelho Neves da Rosa*

 *Gabriel Botelho é Arquiteto e Urbanista formado pela Universidade Federal Fluminense - UFF .

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