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O Que Apenas Sentimos

Por: João César de Melo
Formado na Universidade Federal do Espírito Santo

Na tarde seguinte à minha chegada, estirei minha canga sob uma sombra gramada a fim de continuar a ler "Para Além do Bem e do Mal", de Nietzsche. Tentei. Não consegui. Não precisava. Toda a "transvalorização" pregada por ele estava ali dentro daqueles tapumes que delimitavam a Cidade EREA Presidente Prudente.

Não vou falar da beleza das meninas, do despojo dos meninos, nem do colorido das barracas. Não vou falar do arrepio em rever amigos, das lágrimas contidas... Falarei de Nietzsche.

Se Nietzsche prega a transvalorização, aqueles 160 participantes viveram a transvalorização. A inspiração daquelas 160 almas era a valorização dos valores que a sociedade não valoriza. Todos flutuavam, uns nos outros, entre olhares, sorrisos, beijos e outras coisas que sacodem barracas. Todos flutuavam nas oficinas, nas palestras, nas vivências... Vivemos, todos, a mesma coisa. Coisa? Sim, somos uma coisa que o mundo do lado de fora dos tapumes desconhece. O resto do planeta que me perdoe, mas não há melhor lugar para se estar que num Encontro. Se um cometa alvejasse a Terra, só nós sobreviveríamos. Só nós mereceríamos. Desculpe-me os belos: todas as "belezas" que a sociedade anuncia nas vitrines dos shoppings, nós as substituímos por olhos brilhando, por discussões nada chatas, por sexo nada gratuito - a "beleza" entre aqueles tapumes é outra, my big brother!

Nietzsche iria gostar de nos ver vivendo um mundo sem verdades, sem moral, feito apenas do desejo de troca, de busca e de experimentação. Talvez, Nietzsche nos descresse como um pequeno e solitário terreno arado e fértil, pronto para semear, bem no meio de um vasto jardim de flores de plástico.

Mas foi a Comorg do EREA Presidente Prudente que primeiro quebrou as pernas da "verdade". É possível sim fazer um Encontro com apenas 160 inscritos, e ainda oferecer atividades e alimentação de qualidade, bolsa, caderninho e cerveja Brahma a R$ 1,50.

Tantas outras coisas são possíveis...

"...sou segurança de festas. Ganho a vida apartando briga, botando moleque bêbado pra fora, vendo jovens querendo se matar... Isso que eu vi aqui, esse carinho todo uns com os outros, eu nunca vi, nunca imaginei existir. Eu moro num bairro pobre aqui perto, e venho levantando minha casa de tijolo em tijolo a partir de uns rabiscos que faço. Agora, depois que conheci vocês, depois que vi do que vocês são feitos, eu vou economizar meu dinheiro para contratar um arquiteto. Se um arquiteto é uma pessoa como vocês, eu lhe confiarei projetar minha casa do jeito que quiser", me disse o chefe da segurança do Encontro, na manhã do último dia. O que dizer sobre isso? Uma simples postura de quase 200 participantes mudou a opinião de uma pessoa humilde, sem instrução, à respeito de toda uma classe "profissional".
 
Aqueles sorriso, aqueles abraços, aqueles beijos, aquela cerveja bebida com tanto prazer no bar tem um poder muito, muito maior do que imaginamos. Cabe a nós, que vivemos aquilo, levar para fora dos tapumes o que fluímos entre eles.
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