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Senso Comum

Senso comum é o juízo corriqueiro, habitual que damos às coisas em nosso cotidiano, um tipo de pensamento que impera na maioria das pessoas em um determinado momento histórico; algo que passa pelo crivo da cultura e do usual sem passar necessariamente pela consciência. Em geral valores e crenças coletivas surgem em determinadas épocas para suprirem demandas que aquela sociedade necessita para sobreviver. Na época dos faraós as pessoas acreditavam que deveriam erguer pirâmides para servir os deuses, e na idade média a Igreja mantinha a coesão social através da fé e do discurso que um “servo” e um “senhor” assim eram pelo mérito divino de nascimento.

Hoje em dia, contudo, vivemos norteados por um sistema de crenças que nos dizem que “na era da razão” tais coisas como uma crença cega não existem, que todos são livres para escolher o que lhes convém e etc. Isso se chama Ideologia, o senso comum da atualidade que permite a manutenção do pacto social no capitalismo. Dentro dessa ideologia hegemônica encontramos várias idéias falsas de realidade, que de tanto repetidas pelas instituições (escola, mídia, religião e etc.) desde que nascemos somos forçados a acreditar. A primeira é de que existe a liberdade, ora, já que votamos de 4 em 4 anos em quem queremos e temos a liberdade de comprarmos o que queremos e irmos aonde quisermos isso me faz governar meu próprio destino, certo? Será mesmo? Pergunte para o filho da sua empregada o que ele quer ser quando crescer e entenderá o que é a liberdade, não precisa ir muito longe, pense no seu sonho de atuação quando se formar, e realizar os projetos da sua vida como os P.As fora da lógica de mercado e pense se somos mesmo livres na atualidade.

Outra coisa que é repetida no senso comum é que “política, religião e time de futebol não se discute”, é mesmo? Então não devemos discutir política? Claro! Porquê afinal de contas o PIB brasileiro cresceu 1,4% e eu continuo desempegado! Pra frente Brasil! Se não mudar eu voto em uma pessoa diferente nos próximos 4 anos! O fato de eu não lembrar quem foi na eleição passada é piada! Hahahaha! É... muito engraçado...

Para fundamentar esses mitos, entre muitas instituições, existe a mídia. No cotidiano do trabalhador (estudante) o cara acorda às 6 da manhã, passa duas horas no ônibus, se mata o dia inteiro de trabalhar e na volta e, pra se distrair, compra uma revista pra falar da vida perfeita da atriz da novela que ele não conhece. Ao chegar em casa é hora de relaxar e ver o jornal! Lá ele vai ver que um bando de componeses pobres que tentou vencer a exploração foi masacrado no Pará, (guerrilheiros)...que os trocadores de ônibus fizeram uma greve por melhores condições (e todo mundo teve que ir ao trabalho a pé)...Que os estudantes ocuparam a reitoria para impedir a destruição do ensino (fanfarrões baderneiros)”...Mas os pais da Isabela, esses sim! são os único grandes maus da história!

Tudo isso faz parte do que um dia se chamou cultura, hoje, pela cultura ter se transformado em ideologia materializada, temos o que chamamos de “indústria cultural”. A cultura que defende que um tipo de pensamento a “razão instrumental” nos faça pensar, mas não questionar o que é determinado pelo poder do capital. Assim passamos a crer nas idéias de “progresso e desenvolvimento” enquanto progresso tecnocrático, que a liberdade seja a gama de opções que a internet ou a T.V a cabo nos oferece, e para que tenhamos prazer com o mercado que gera esse conjunto de contradições sociais. É o chamado “prazer do esquecimento”, o narcótico social oferecido através do entretenimento: filmes do ano, música da moda, compras no shopping, quanto mais vazio melhor. Se tiver um pouco de teor revolucionário este simplesmente é fagocitado pela industria cultural, assim a “contra-cultura” antes de o ser se torna parte da cultura hegemônica, subvertendo a cultura punk em grife, ou o revolucionário  em estampa de camisa e capa de CD (vide Che Guevara). Tudo isso pra que eu me torne radical sem sair da linha!

No dia a dia possuímos a triste mania de dizer que “o outro é alienado”, isso é ruim pois faz perder o sentido político da questão. Alienar no dicionário significa: “Transferir”, já na psicologia “alienado mental” é aquele que não vê diferença entre ele e o outro. Para começar, do ponto de vista econômico todos somos alienados, pois o fruto de nosso trabalho nos é transferido. O pedreiro constroe prédios e mora em uma casa inacabada, a operária faz sapatos o dia inteiro e volta descalça pra casa, O professor da universidade particular dá aula e quem recebe a mensalidade é o dono da instituição, simplificadamente isso é o que Marx chama de “mais valia”. Mas se todos são alienados econômicos nem todos são alienados políticos, por isso existem rupturas e a dominação não é total! Por isso existe o movimento estudantil e os movimentos sociais, para discutir esse tipo de coisa, e por isso existe o senso comum que prega que política e uma compreensão profunda do que nos acontece é bobagem, que a luta do movimento estudantil e social é uma fanfarronice, que em todo CA, FeNEA e DCE do mundo só existe maconheiro barbudo que não quer saber de nada, que discutir é legal desde que não mude a estrutura da sociedade porquê cuidado! Se te rotularem de radical a parada ficou feia!

Por isso devemos nos focar em uma crítica à ideologia no campo da cultura, da sociedade e da consciência. O primeiro passo é no campo da consciência, entender o que o cerca e como o sistema opera é buscar a emancipação. Há uma relação constante entre poder e saber, pois quem sabe pouco, pode menos. Como diria uma grafite em um muro qualquer: “quem acorda busca a verdade, quem luta a liberdade”. Lutar meu amigo, alguém o pode fazer por você, mas e acordar? Quem é que vai?

[Tiago Bastos (Lobão) - estudante da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) - ComOrg do EREA Juiz de Fora 2008 - Diretor Regional Leste - gestão 08/09]

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