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Sobre arquitetura, cultura e consciência

Sobre Arquitetura, Cultura e Consciência

por Ricardo Nunes*

*Ricardo Nunes é arquiteto e urbanista, ex-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil em Sergipe e professor de planejamento urbano na FAU-UNIT.

De todas as artes a Arquitetura é a mais grandiosa. Tanto em sua dimensão material quanto na sua extensão social, pois ao ofício de arquiteto é confiada a elaboração de uma obra cultural através da qual se poderá conhecer com clareza e propriedade toda a história da nossa civilização. O arquiteto tem como compromisso social criar objetos sensíveis e utilitários capazes de serem representativos de uma comunidade dentro de um determinado espaço e de um tempo, ou seja, o de produzir cultura.

A cidade e a Arquitetura são entidades que guardam a essência do humano diluído em seus espaços. Enquanto o urbanismo com suas ruas, praças e avenidas, manifesta o grande universo de uma comunidade, a Arquitetura com suas fachadas, varandas e janelas, apreende uma história particular em seu interior, revelando o microuniverso do humano. Se as cidades contam a história da humanidade, a arquitetura de uma casa representa a dos indivíduos. É o arquiteto que desenha e perpetua no tempo a crônica mais grandiosa de sua época.

Havendo talento, o arquiteto, ao criar um abrigo associa o barro, a madeira, a pedra, a cal, o ferro e o vidro e transforma essa amalgama em emoção. No processo de criação arquitetônica, a arte arraigada no seu íntimo se liberta e passa a residir no objeto projetado. Uma parcela desse dom o abandona e dele se torna independente indo se projetar na história, passando a pertencer a todos que habitam a cidade. Quanto maior for a sua atuação no processo de construção de uma cidade, mais relevante e bela esta se torna para o seu povo e sua cultura.

Ouro Preto, Olinda, Paraty, Brasília, cidades brasileiras planejadas e construídas por arquitetos, são hoje patrimônios da humanidade e exemplos da importância do trabalho sensível desses seres que tem como costume olhar para um futuro que poucos vêm. Curitiba, cidade brasileira historicamente caótica como qualquer outra, definiu e executa uma poderosa política de gestão urbana ao longo de três décadas conduzida por uma operosa equipe de arquitetos e urbanistas, incluindo os seus prefeitos nos últimos cinco mandatos, tornou-se hoje um modelo de cidade copiado por vários paises desenvolvidos.

Ao decidir mudar a capital do Brasil na década de 50, o presidente Juscelino poderia ter encomendado a tarefa de construção da nova cidade aos burocratas ministeriais, como faz a maioria dos administradores públicos brasileiros. Na mesquinhez das suas decisões de interesses pessoais e partidários, teriam certamente produzido mais um desastre urbano para o Brasil. Mas não. Decidiu municiar-se de dois fiéis escudeiros: de um lado o urbanista Lúcio Costa e do outro, certamente o esquerdo, o arquiteto Oscar Niemeyer e juntos conduziram a maior e mais bela aventura da Arquitetura e da Engenharia brasileira, a construção não só da cidade de Brasília, mas de um monumento à inteligência da humanidade.

São exemplos claros assim que poderiam ajudar a introduzir na consciência dos executivos nacionais a importância do trabalho do arquiteto no processo de construção e gestão das nossas cidades. Uma cidade sem arquitetos é como um hospital sem médicos ou uma escola sem professores. As conseqüências desastrosas serão inevitáveis como podemos ver todos os dias no nosso trânsito, na péssima qualidade dos espaços públicos e nos vários canais apodrecidos da cidade.

O papel oferecido hoje ao arquiteto, quando muito, é aquele que o reduz a um obediente interprete de interesses imediatistas. O ser ao qual foi dado o dom e o conhecimento para criar os espaços aonde vai se desenvolver a vida, é posto ao largo do processo no qual deveria ser o mentor.

Esta função, assim amesquinhada, decorre, sobretudo do despreparo de grande parte dos responsáveis pela construção das cidades, cujos propósitos interesseiros, que buscam o lucro rápido, seja este político ou financeiro, os impedem de perceber que construir uma cidade é construir uma cultura e a vida de um povo. Nosso problema é de mentalidade e de estágio cultural. Todavia, como creio que caminhamos sempre na direção do conhecimento e da consciência, chegará o dia em que todos os hospitais terão médicos, todas as escolas terão professores e todas as cidades terão arquitetos.

Ricardo Nunes é arquiteto e urbanista, ex-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil em Sergipe e professor de planejamento urbano na FAU-Unit.

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