Bosque da Paz

Construindo a Consciência em forma de Espaço Público
31 de Agosto de 2013
Maithan Mayer
Diretor Regional Centro

“As praças e parques urbanos são espaços que estruturam parte da vida pública. Neles a cidade se encontra em sua diversidade, tornando visíveis os diferentes grupos que compõem o tecido urbano, assim como suas contradições.” ¹  Ou pelo menos deveria ser assim, se levarmos em conta que os parques urbanos são espaços públicos, dessa forma, atribuição do governo sua promoção e manutenção, e responsabilidade social o seu zelo e apropriação.

A cidade de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul possui um grande potencial urbano. Situa-se em uma região de clima agradável e apresenta uma forte cultura de convívio entre os cidadãos. Porém, grande parte dos espaços públicos existentes não são qualificados com acessibilidade e/ou um programa de atividades que atraiam a população principalmente para o uso noturno, por exemplo, deixando os locais esvaziados nesse período e propícios à marginalização, ocupação por usuários de drogas, depredação e furtos.²

Como meio de mobilizar a comunidade campo-grandense sobre seu papel na preservação dos espaços da cidade, além do conceito maior de conscientização sobre as falhas na segurança pública, a Associação Mães da Fronteira, criada em prol da luta contra o tráfico, a violência e a impunidade no Mato Grosso do Sul e no Brasil, promove o projeto “Revitalização do Bosque da Paz Breno e Leonardo”, no Carandá Bosque I na cidade de Campo Grande, com apoio e a colaboração de artistas locais, além de parcerias com Empresas, Movimentos Sociais e Grupos Acadêmicos, como o caso dos estudantes de Arquitetura e Urbanismo das universidades da capital, diretamente envolvidos no projeto físico e conceitual da revitalização do bosque. 

Cerca de 40 estudantes das faculdades de Arquitetura e Urbanismo da UniDERP, UCDB e UFMS participam do projeto, através da oficina de Revitalização do Bosque ministrada por Gutemberg Weingartner, Professor Doutor em Arquitetura e Urbanismo, que dividiu a atividade em três etapas: Leitura, Estudo Preliminar e Projeto.

Pretende-se que em 3 meses os estudantes desenvolvam o levantamento do lugar, o estudo através de maquetes e plantas-baixas, a humanização com mobiliário, instalações e paisagismo, além de idéias para o programa de necessidades, atividades para o Bosque e outras ações.

A oficina é apoiada diretamente pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e se apresenta como um importante projeto de extensão para os alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo, cujas mãos práticas e as mentes curiosas dão, a cada reunião, idéias novas e criativas para o projeto. É um trabalho em equipe com benefícios para a vida acadêmica e também um bom exemplo do exercício profissional.

Identidade Visual do Bosque da Paz Breno e Leonardo por Don Dolores,

pintor autodidata, artista gráfico e diretor de arte na área de publicidade em Campo Grande.

A Federação Nacional dos Estudantes de Arquitetura e Urbanismo – FeNEA esteve presente na primeira reunião da oficina, representada pelo Diretor Regional Centro, Maithan Mayer, que visita com freqüência a cidade de Campo Grande, onde tem grandes amigos e acompanha o movimento estudantil de Arquitetura e Urbanismo da cidade, que considera bastante ativo e em constante busca de mobilização, o que tem influenciado outras bases acadêmicas do curso pelo país: “Os estudantes de Campo Grande têm ganhado visibilidade nacional através da divulgação do XXVII Encontro Regional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo de 2014, que será na capital sul mato grossense, e do CoCAU – Conselho de Centros Acadêmicos de Arquitetura e Urbanismo que mantém contato com os Movimentos Sociais do estado e movimentam constantemente as universidades para pautas referentes ao ensino e necessidades do curso, além de estarem presentes nas discussões sobre reforma urbana, mobilidade, política e outras ações sociais, como a participação direta no projeto de Revitalização do Bosque, conquistando o respeito e parcerias para os seus  projetos acadêmicos futuramente”.

O Objetivo do Projeto é criar um espaço cultural, ambiental e educativo, capaz de promover trabalhos sociais de inclusão e combate aos perigos que assombram os jovens da cidade, lembrando da luta das famílias de Breno Luigi Silvestrini de Araújo e Leonardo Batista Fernandes, universitários mortos em um seqüestro em Agosto de 2012, vítimas do tráfico na fronteira seca entre Brasil, Paraguai e Bolívia. Conheça o caso³.

Após o crime, as mães de Breno, Lilian Silvestrini, e Leonardo, Ângela Fernandes, criaram o projeto Mães da Fronteira, com o objetivo de lutar por uma maior fiscalização na divisa entre o Brasil e os países vizinhos, que caracterizam como as "portas do crime" no país.

A pedra fundamental da Revitalização do Bosque da Paz foi lançada no dia 31 de Agosto de 2013, como parte de uma série de atividades na cerimônia de um ano da morte de Breno e Leonardo, que teve também como destaque o ato solene “Não podemos esquecer” no local onde os jovens foram encontrados, onde a Associação Mães da Fronteira inaugurou o Memorial Breno e Leonardo, transformando o interior da Galeria Pluvial em um belo túnel artístico com desenhos em grafite que remetem aos sonhos e costumes dos garotos, obra do artista Guto Naveira. Ao lado, uma imagem do espaço com os pais dos jovens no dia do ato. (Fonte: Diário Digital, Ed 1229)


O Bosque é visto pelos compositores do projeto como um potencial urbano em forma de tributo, sendo que a maioria das homenagens conhecidas vêm em forma de monumentos e altares, muitas vezes simbolizando a memória dos fatos. A última obra nesse modelo em notícia é o “Memorial dos Estudantes Mortos e Desaparecidos pela Ditadura Militar” que está sendo construído na sede da UFRJ no Rio de Janeiro. Porém, acredita-se que os resultados de um espaço público memorial podem também responder uma necessidade social ao presentear a cidade com um espaço educativo, dinâmico e conscientizador, objetivos do Bosque da Paz e que podem inspirar, por exemplo, os recentes estudos para o Memorial às vítimas doCésio 137 em Goiânia, o Marco pelo Gran Circo em Niterói, e a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Boate Kiss para criação do memorial, que já conta com a proposta do Artista Plástico Mauro Pozzobonelli (foto da maquete ao lado), além de um monumento no local do edifício da Boate, proposto pela Prefeitura de Santa Maria. 

Essa forma de trabalhar o espaço público como instrumento de educação social pode ter inspirado o projeto de Revitalização do Bosque da Associação Mães da Fronteira, porém o conceito de ser um espaço de conscientização é único, um memorial palpável e não apenas contemplativo, uma homenagem em que a proposta não é fazer com que o usuário se lembre do fato, quem eram as vítimas e o que faziam, mas que permitam que o indivíduo vivencie o que eles gostavam de fazer, permeiem sobre sua rotina e conheçam suas maiores qualidades: o amor à natureza, à amizade e à arte.

Como integrante do grupo de organizadores da oficina está a Arquiteta e Urbanista Paola Silvestrini, irmã de Breno Silvestrini e também associada ao Mães da Fronteira. Paola descreve que o envolvimento de profissionais na Revitalização do Bosque serve como garantia da qualidade projetual e adequação correta às normas e técnicas construtivas, mas a apropriação que os estudantes envolvidos terão do Bosque através da oficina é que garantirá a qualidade da obra: “No momento em que eles observarem aquele espaço como seu, onde exercitou seus conhecimentos, criou laços, aprendeu fazendo, e não só participou, mas construiu um sonho de toda uma população, teremos a certeza de que o espaço será valorizado, utilizado e zelado por eles para o resto de suas vidas, sendo estes os futuros responsáveis por nossos espaços urbanos, os primeiros conscientizados da importância da cooperação e da segurança pública em nossa cidade.”

                

Ao lado: Os estudantes visitam o Bosque no dia da Pedra Fundamental; Aula expositiva com o Professor Gutemberg Weingartner; os alunos desenvolvendo os trabalhos na UFMS.

As duas famílias se disponibilizaram pela manutenção do espaço e a promoção de eventos que mantenham viva a dinâmica do bosque, como concursos culturais, espaços de incentivo a leitura, à música, aos encontros, à poesia e ao esporte, principais hobby’s de Breno e Leonardo, uma forma de dar valor a um espaço que eles, antes, proporcionavam vida. Mesmo assim, espera-se do poder público, no mínimo, a infraestrutura básica para o local poder ser apropriado com qualidade e segurança, como iluminação, estações de água, banheiro e pavimentação com acessibilidade, e se possível, até mesmo uma guarita policial, garantindo a segurança de atividades tanto no período diurno quanto noturno.

“O Bosque é, ainda, um lugar dominado por usuários de droga e cenários de violência, mas talvez a população nunca venha a observar isso, pois nada mais será como antes. Acredita-se que a única coisa que pode implicar na degradação de um espaço e sua ocupação irregular é o descuido, portanto contamos com a sociedade e o governo para zelar por esse lugar e tudo o que representa”, diz a mãe de um dos jovens na abertura da oficina. Como nos permite refletir Jane Jacobs: “A segurança é competência da administração pública, pois o principal atributo de um distrito urbano próspero é que as pessoas se sintam seguras e protegidas na rua em meio a tantos desconhecidos”.

A luta da Associação só está começando. Após conseguir mais de 100 mil assinaturas na petição pública pelo fim da impunidade, o grupo irá se reunir com o ministro José Eduardo Cardozo e o Vice Presidente Michel Temer no dia 23 de Setembro, e pretendem cobrar e propor ações mais efetivas por maior segurança no país, maior fiscalização e melhor controle de acesso às Fronteiras. A partir disso, a luta será fazer com que esse debate chegue a todos os meios de mobilização popular, se introduzindo nos Movimentos Sociais, nas Escolas e Instituições públicas e privadas, e dialogando com Associações de combate às drogas, proteção ao meio ambiente, valor à vida e outras iniciativas cujos princípios se assemelham ao Mães da Fronteira.

A FeNEA, que irá acompanhar o desenvolvimento da Oficina e o processo de Revitalização do Bosque da Paz Breno e Leonardo parabeniza todos os envolvidos no projeto da Associação Mães da Fronteira, não somente por abraçarem a causa, mas pelos objetivos pessoais de cada um dentro desta atividade, que com certeza são visionários. Uma pequena ação com resultados grandiosos.

(Pais de Breno e Leonardo no lançamento da pedra fundamental do Bosque da Paz)

Talvez, em poucos dias, os espaços projetados pelas mãos desses estudantes, chamados de compositores, estejam sendo ocupados por jovens ao violão, uma roda de tereré numa boa sombra, skatistas e ciclistas permeando sobre seus caminhos, namorados em passeio, famílias, irmãos, amigos, encontros, despedidas e muitas outras histórias acontecendo num lugar que será fruto da cooperação e resultado da luta de uma comunidade unida, que pretende dar uma perenidade na Terra para uma história de amizade que, com certeza, continua em outro lugar.

O Bosque da Paz é, acima de tudo, uma Homenagem à vida de Breno e Leonardo, não uma lembrança da morte ou do crime. É uma atividade de celebração à coletividade, onde juntos os envolvidos devolvem a vida que foi tirada de um espaço público no processo de crescimento da cidade e com o descaso público, ministrando naquele espaço o que era sentido para a vida dos meninos.

Que o Mães da Fronteira seja o partido de uma conscientização pelo fim da impunidade e pela paz nas famílias brasileiras, e que seus projetos participativos continuem a mobilizar o país e sejam capazes de unir ainda mais uma sociedade que a cada dia se torna mais individualista e acomodada.

“Que não seja necessária uma tragédia na família das pessoas para que elas percebam que a segurança é falha e a importância do governo é mínima. Que possamos cuidar um dos outros a partir de agora, e que nenhuma mãe chore o que choramos. Parece utópico, mas sonhos precisam ser grandes para que cheguemos ao mais aproximado possível.” Diz Ângela Fernandes, mãe de Leonardo.

E quem passar por este espaço talvez nunca saiba a força que o construiu ou os braços que o projetaram, nem quem foram Breno e Leonardo, do que gostavam e o que faziam, ou como se foram. Mas vão entender para sempre a mensagem de cooperação a ser passada, vão compreender que uma nação precisa proteger um ao outro, e que seu filho também corre o mesmo risco que o filho do vizinho. Que seja a maior referência para esses estudantes e que nunca se esqueçam do valor da coletividade pois, acima de tudo, irão materializar os sonhos de dois jovens e criar o cenário dos encontros e histórias mais vivas de Campo Grande. Que haja risos, que inspire poesias, que reforce amizades, que desperte o saber, que manifeste o respeito, que renasça os ânimos, que refresque os corpos e que aqueça as almas, que incentive a luta, que motive a gentileza, que conscientize os povos, que determine ações, que fortaleça os laços, que atraia o bem, e que floresça a tão almejada paz. Longa vida ao Bosque da Paz Breno e Leonardo. 

Maithan Mayer
Diretor Regional Centro 2011-2013




1 - SOUZA, F. S. (2008). O espaço público contemporâneo: A complexidade vista a partir de parques urbanos de Porto Alegre. Porto Alegre: UFRGS.

Fotos Bosque e Oficina: Edilson Leandro - UCDB, e Aleida Batistoti - UCDB



Para saber mais sobre o Projeto de Revitalização do Bosque acesse: Revitalização do Bosque da Paz

Estudantes Compositores e Responsáveis:

 Lucas R. Pereira - UniDERP            Gustavo Raniere - UCDB          Érika Luiza Rosa - UniDERP      Luciana Lucas Gomes - UniDERP      Arquiteta Paola Silvestrini




Sobre a Associação Mães da Fronteira:

  

Responsáveis: Ângela Fernandes e Lilian Silvestrini


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